sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A MALDIÇÃO DOS MORTOS- VIVOS/ 1988


A Maldição dos Mortos-Vivos
Original: The Serpent and the Rainbow
Ano:1988•País:EUA
Direção:Wes Craven
Roteiro:Wade Davis, Richard Maxwell, Adam Rodman
Produção:Doug Claybourne, David Ladd
Elenco:Bill Pullman, Cathy Tyson, Zakes Mokae, Paul Winfield, Brent Jennings, Conrad Roberts, Badja Djola, Theresa Merritt, Michael Gough, Paul Guilfoyle, Dey Young


Nas lendas vodus, a serpente é o símbolo da terra. O arco-íris é o símbolo do céu. Entre um e outro, todos os seres devem viver e morrer. Mas por ter alma, o homem pode ser aprisionado em um lugar terrível em que a morte é apenas o começo.
Wes Craven é um daqueles diretores cujo nome sempre é lembrado quando o assunto é cinema de horror. Apesar que curiosamente tanto ele quanto Tobe Hooper, outro cineasta da mesma geração, iniciaram as carreiras no início da década de 70 com filmes violentos, perturbadores e muito cultuados até hoje, e ainda assim ambos possuem uma filmografia bastante irregular. Hooper dirigiu O Massacre da Serra Elétrica em 73 e Eaten Alive três anos depois, já Craven é o responsável por filmes como Aniversário Macabro (72) e Quadrilha de Sádicos (77), além do famoso A Hora do Pesadelo (84), o início da saga de Freddy Krueger, e da conhecida franquia de horror adolescente Pânico, iniciada em 96, investindo na tradicional história do psicopata assassino mascarado. Mas, ao longo de suas carreiras, os dois fizeram vários filmes de qualidade duvidosa que acabaram caracterizando suas imagens como cineastas de altos e baixos, deixando os fãs sempre receosos e apreensivos quando é anunciado algum novo trabalho deles.
Entre a parte memorável da carreira de Wes Craven, destaca-se um filme produzido no final dos anos 80 abordando de forma diferente a sempre interessante temática dos zumbis, mesclando elementos sobrenaturais com fatos baseados na realidade, através das misteriosas práticas de vodu no Haiti, um país pobre da América Central, localizado na região das Antilhas, e que teve colonização francesa. O resultado disso pode ser conferido em A Maldição dos Mortos-Vivos, cujo nome nacional escolhido é bem oportunista e comercial, ao contrário do título em inglês que é The Serpent and the Rainbow, ou A Serpente e o Arco-Íris, com a origem desse nome sendo muito bem explicada na introdução narrada do filme, e que a título de ilustração está reproduzida no topo desta análise.


Baseada em fatos reais, a história se inicia em 1978 no Haiti, uma terra conhecida pela prática de vodu, mostrando um homem diagnosticado como morto pela medicina e sendo enterrado. Depois ocorre um salto no tempo para 1985 numa região na bacia amazônica próxima ao Rio Negro, onde o antropólogo americano Dr. Dennis Alan (Bill Pullman), está fazendo uma perigosa expedição botânica, tendo contato com índios locais e experimentando fortes drogas alucinógenas.
De volta aos Estados Unidos, em Boston, ele recebe uma tentadora proposta para fazer uma viagem ao Haiti, a serviço de uma grande empresa farmacêutica chamada Biocorp, dirigida pelo Dr. Andrew Cassedy (Paul Guilfoyle), com o objetivo de investigar um fato extremamente curioso: a existência de evidências sobre um homem chamado Christophe Duran (Conrad Roberts), que havia morrido e sido enterrado há sete anos, e que estava novamente andando entre os vivos, como se fosse um zumbi.


Ao chegar no Haiti, o Dr. Alan entra em contato com um país com um regime político ditatorial, sentindo uma revolução no ar que poderia estourar a qualquer momento. Com a ajuda da psiquiatra Dra. Marielle Duchamp (Cathy Tyson), que trabalha num asilo para doentes mentais interessado nas verbas da empresa americana, o pesquisador inicia uma investigação sobre o caso, encontrando e entrevistando Christophe, o homem que fora enterrado vivo anos atrás, entrando em contato com seitas religiosas que praticam o vodu, conhecendo um importante sacerdote, Lucien Celine (Paul Winfield), que também dirige uma boate para turistas, e tendo pesadelos estranhos em verdadeiros delírios oníricos. Além disso tudo, ele acabou descobrindo também um poderoso composto químico utilizado como analgésico que é capaz de simular a morte de uma pessoa, paralisando seus movimentos mas mantendo a consciência, conhecendo e fazendo amizade com um homem que fabrica esse veneno, Louis Mozart (Brent Jennings). O pó químico é uma mistura de vários componentes exóticos com rituais de magia negra e demora três dias e três noites para ser concluído. Mas o maior problema enfrentado pelo americano foi se envolver de forma extremamente perigosa com a polícia secreta do autoritário governo haitiano, comandada pelo violento Dargent Peytraud (Zakes Mokae), que também utiliza o vodu como arma ao seu favor.
No Haiti existe uma intensa turbulência política, com o povo vivendo oprimido sob um regime de ditadura que instaurou o caos social, e o trabalho do cientista americano inevitavelmente acabou incomodando certos interesses do poder, sendo perseguido por suas descobertas, e sentindo na pele a tirania da polícia local, com direito a uma sessão de tortura e até a ser enterrado vivo, sob o efeito de uma poderosa droga que dá a impressão de se estar morto, ludibriando os próprios médicos. Lutando por sua vida, o Dr. Alan precisará discernir o que é ciência do que é superstição ou sobrenatural, enfrentando mistérios desconhecidos num país vivendo sob um sufocante totalitarismo e onde magia negra é uma atividade comum.


A Maldição dos Mortos-Vivos pode ser considerado um filme dentro do sub-gênero zumbis, mas apresenta elementos que o diferem da maioria das produções sobre mortos-vivos, principalmente aquelas com mortos putrefatos canibais à procura do cérebro e da carne macia e fresca dos vivos. O filme de Wes Craven utiliza uma ideia central baseada em fatos reais (do livro de Wade Davis), sobre a desagradável experiência de um cientista americano enterrado vivo e descobrindo um pó químico capaz de simular a morte, mesclando a história com elementos sobrenaturais retirados de lendas locais sobre vodu, além de aproveitar também a oportunidade para fazer uma interessante crítica social contra o regime de ditadura do Haiti. O resultado é que não é um filme de mortos-vivos sedentos de sangue e famintos por carne, mas um abordando questões sobre magia negra, um misterioso composto químico capaz de matar temporariamente uma pessoa, a horrível sensação de ser enterrado vivo, e o desconfortável sentimento de se viver num país pobre e sem liberdade política, em condições encontradas em vários lugares do mundo.
Algumas cenas de destaque são as experiências de surrealismo vividas pelo antropólogo Dennis Alan em terríveis pesadelos onde ele se vê puxado para dentro da terra por mãos ameaçadoras, vendo animais selvagens e criaturas podres, além da sensação angustiante de ser colocado num caixão de madeira e enterrado vivo, consciente de tudo que está acontecendo e não podendo fazer nada até o término do efeito de uma droga poderosa, constatando depois que gritos desesperados são insuficientes para salvá-lo debaixo da terra.


Curiosamente, vale a pena citar a tagline oficial do filme, bastante sonora, Don’t bury me…I’m not dead! ou Não me enterrem… Eu não estou morto!, enfatizando a ideia central da história em explorar o terrível medo de sermos sepultados vivos, o que certamente é uma das situações mais desesperadoras que um ser humano pode enfrentar. Basta tentar imaginar o sofrimento intenso e sentimento sufocante de claustrofobia de alguém preso num caixão escuro embaixo da terra, apertado, gritando, se debatendo violentamente, tentando sair de qualquer jeito em busca de ar puro, e principalmente, morrendo lentamente por não conseguir se libertar. Algumas palavras do pesquisador Dennis Alan, que sentiu na pele essa experiência macabra, reforçam a ideia de horror de ser enterrado vivo e envenenado por um composto químico misterioso que age como um forte anestésico de efeito temporário:
Um homem saberia tudo o que está acontecendo o tempo inteiro, ouviria, veria, talvez até sentiria, pensaria, mas nada se pode fazer. A pessoa fica lá parecendo morta e enterrada. Só que estaria com vida. E é bom recordar, os testes revelaram que o efeito do pó passa após umas doze horas, deixando as vítimas completamente normais de novo, só que estão uns dois metros solo abaixo em total escuridão, se debatendo e gritando, mas ninguém para escutar.
O pó zumbi e seu ingrediente ativo, tetrodotoxina, estão atualmente sob estudo científico intenso tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Até esta data, o seu modo de ação continua um mistério.

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A Maldição dos Mortos-Vivos (1988)

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